Levou um tempo para Adélia se dar
conta que estava livre do policiamento moral da comunidade religiosa da qual
fazia parte. Assídua em uma igreja pentecostal, ela sentiu-se sem chão quando
as autoridades proibiram os cultos durante o período da quarentena.
A sua igreja era especialmente
rigorosa com o comportamento, hábitos corriqueiros e vestimentas, especialmente
das mulheres. O pastor Cláudio era um bastião da moralidade, temido por todos
os fiéis que exerciam entre si uma rigorosa fiscalização. O líder era rapidamente
informado de qualquer impostura, repreendendo prontamente o infrator. Uma vez,
Adélia foi chamada atenção porque a viram pela rua usando uma saia considerada
muito curta, indecentemente à altura dos joelhos.
Nenhuma extravagância era
permitida, nada de pintar as unhas ou maquiagem com cores fortes. "Estimula o
pecado da concupiscência da carne", dizia o pastor em suas pregações, sem que a
maioria soubesse muito bem o que isso significasse. A própria Adélia se via
fiscalizando a vida alheia e ainda que não se sentisse muito bem com isso,
achava que era sua obrigação moral resguardar a comunidade das investidas do
demônio.
No começo do isolamento social a
comunidade buscava manter contato através de cultos transmitidos pela Internet, grupos
de discussão bíblica pelas redes sociais, mas, sem as atividades presenciais,
com o passar do tempo, as coisas foram esfriando. Mesmo assim, Adélia mantinha-se
em estado de alerta, tendo o cuidado de não falar, vestir ou insinuar algo de
impróprio.
Foi quando estava no
supermercado, de máscara e óculos escuros, que se deu conta que ninguém a
reconhecia. Encontrou e cumprimentou uma das irmãs de fé:
– A paz do Senhor irmã Marta.
– A paz do Senhor...
Marta olhou com uma expressão de
interrogação no rosto.
– É... me desculpe irmã... não
estou te reconhecendo.
– Sou eu, Adélia!
– Ai meu Deus, eu nunca teria te
reconhecido.
Depois de conversar algumas
amenidades, elas se despediram, mas aquela frase “eu nunca teria te
reconhecido”, ficou martelando na sua cabeça como um convite. No dia seguinte,
Adélia colocou aquela mesma saia condenada para ir ao supermercado com grandes óculos escuros e uma
grande máscara no rosto. Ajudava o fato de que era uma
jovem de traços singelos, um rosto belo, mas comum, sem nenhum sinal ou
característica que chamasse atenção, a não ser pelas belas curvas do seu corpo que
ela aprendeu a esconder e se envergonhar. Enfim, era uma dessas pessoas que
facilmente se tornavam irreconhecíveis.
No supermercado passou
silenciosamente por outro irmão de fé que não a reconheceu. Seu coração
disparou ao cometer aquela transgressão, mas, era uma sensação alegre e
excitante. Um ar de liberdade arejou a sua vida sufocada de moralismo. Parecia
alimentar a fantasia de que se a igreja não a reconhecia disfarçada, Deus
também não a veria.
Começou a ousar um pouco mais nas
suas roupas, uma calça justa, um decote mais cavado, adereços e cores atraiam
os olhares masculinos que não a incomodavam, uma vez que não podia ser
reconhecida. Ao contrário, a coisa evoluiu para uma espécie de fetiche onde ela
se sentia atraente e empoderada. Antes tímida, agora Adélia puxava conversa com
as pessoas nos locais onde fazia compras.
Criou um perfil “fake” em uma
rede social com o nome de Samanta e colocou uma foto onde mostrava seu corpo
sexy e escondia seu rosto. Começou a conversar com um rapaz chamado David, que
também mostrava uma fotografia onde ostentava seu corpo malhado em um ângulo
que não se via seu rosto. Após dias de conversas agradáveis e provocantes eles
decidiram marcar um encontro, seria a primeira vez que Adélia teria um encontro, aliás, agora não se tratava mais de Adélia, mas do seu alter ego,
“Samanta”. Bastava retirar a máscara e os óculos que ela voltava a ser a mesma
moça pudica e recatada.
O encontro seria em uma praia
mais afastada da cidade que não estava interditada aos banhistas. Ela comprou
pela Internet um biquíni vermelho que se destacava sobre sua pele branca que
nunca tinha sido banhada pelo sol da praia. Naquele dia chegou mais cedo ao
local planejado, pois queria aproveitar o sol e o mar. Deitou-se sobre a toalha,
relaxou respirando profundamente e fechando os olhos.
– Samanta?
Abriu os olhos e viu um vulto
masculino, apenas de sunga, contra a luz do sol. Respondeu enquanto buscava
enxergar melhor.
– Eu mesma. Você é o David?
– Sou eu. Você é muito mais linda
pessoalmente, estou sem palavras.
Mas foi ela quem ficou sem
palavras quando David deu a volta e sentou-se ao seu lado, sem máscara no
rosto. Era o pastor Cláudio.
Amei esse conto!!! excelente representação literária...
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