- Eu tinha
razão!
Hernandes balbuciava com um
sorriso de canto de boca escondido por debaixo da máscara enquanto percorria as
prateleiras com disfarçado olhar gélido. Há alguns meses ele não imaginaria que
poderia transitar os corredores daquele supermercado sem despertar atenção dos clientes
que lhe interpelavam com olhares indiscretos.
A pandemia caiu-lhe como um
prêmio lúgubre, trazendo inconfessável satisfação, no entanto reprimida pela
tragédia humanitária e pela consciência de que sofria há cinco anos de Transtorno
Obsessivo Compulsivo que nele se manifestava através de uma incontrolável mania
de limpeza e pavor por bactérias. A compulsão já lhe tinha custado o casamento
e o convívio com os melhores amigos. O isolamento social só agravou os sintomas
e o seu sofrimento, forçando-o a reconhecer que necessitava de ajuda
terapêutica.
Foi quando, há quatro anos, buscou ajuda do doutor Lucas, mesmo assim, era relutante em admitir que seus
medos não eram justificados. Colecionava argumentos assistindo diversos
programas na televisão e sites na internet onde peritos com jalecos brancos
falavam sobre o perigo das bactérias, com luzes ultravioletas que revelavam
sujidades, colônias de germes cultivados a partir de superfícies contaminadas e
todo arsenal de explicações científicas.
Quando a pandemia foi decretada,
ele não precisou adaptar-se em nenhum dos seus hábitos. Já vivia socialmente
isolado e não cumprimentava as pessoas com contato físico por medo dos germens.
Só saia de casa com máscara e luvas, pelo que as pessoas lhe olhavam como se
fosse um extraterrestre. Lavava compulsivamente as mãos, além de ter sempre
consigo álcool em gel. Para entrar em casa realizava um verdadeiro ritual de limpeza
de todas as compras, sapatos, despia-se na área de serviço colocando em seguida
todas as roupas na máquina de lavar.
O telefone celular tocou quando Hernandes
se dirigia ao estacionamento do supermercado. Retirou o aparelho plastificado
do bolso e atendeu com a função viva-voz, sem encosta-lo no ouvido.
- Alô, quem fala?
- Bom dia senhor Hernandes, aqui
é o doutor Lucas.
- Bom dia doutor Lucas, eu estava
a ponto de lhe telefonar para saber como seria minha consulta neste período de
pandemia. Imagino que o senhor deverá fazer atendimentos por web conferência.
- Pois é senhor Hernandes, na
verdade essa ligação é para avisar-lhe que não precisa mais vir ao consultório.
- Os atendimentos serão por
vídeo-chamada?
- Então... senhor Hernandes, de
fato, neste período atenderei meus pacientes por vídeo-chamada, mas quero dizer
que estou te dando alta do tratamento e não precisaremos nos encontrar mais.
Houve um momento de silêncio. Hernandes
não entendeu muito bem. É claro que ele queria que esse dia chegasse, mas sabia
que apesar de quatro anos de intensa terapia, pelo que lia sobre seu
transtorno, não estava curado. Mas, quem era o especialista afinal? É certo que
ele havia conseguido controlar sua ansiedade e episódios depressivos e até
mesmo reduzir alguns rituais de limpeza, mas mantinha a maioria deles.
Perguntou então.
- O senhor está desistindo de
mim? Sou um caso sem solução?
- Não Hernandes, não se trata
disso. É que realmente não é mais necessário e devo ser sincero com meus
pacientes.
- O senhor lembra que continuo
com a maioria dos meus rituais?
- Sim Hernandes, sei
perfeitamente.
- Mas, neste caso, o quê mudou
então?
Após um silêncio reflexivo o doutor
Lucas respondeu de modo lacônico:
- O que mudou... foi o normal, senhor
Hernandes... o normal...
Breno Henrique de Sousa
Comentários
Postar um comentário